Um elogio à dor.

Este texto não romantiza o sofrimento, mas sim reflete sobre os desafios presentes nos processos de crescimento.

Não mergulhar nas próprias vulnerabilidades tempo suficiente para conhecer e acolher os processos inevitáveis da vida nos deixa mais frágeis diante deles: fugir da dor não a elimina, apenas nos deixa desprevenidos quando ela retorna sob outras formas. Quando não nos permitimos atravessar o desconforto, ficamos presos a formas antigas de existir, como se algo em nós soubesse que precisa mudar, mas não encontrasse espaço para isso acontecer; é justamente aí que a imagem da lagarta ajuda a ilustrar o que significa se recolher para um processo de transformação real.

Quando a lagarta está prestes a se transformar em borboleta, passa por um período de isolamento, silêncio e solidão: depois de acumular nutrientes, pendura-se em um galho, de cabeça para baixo, recolhe-se e entra no casulo. Ali surgem as chamadas “células imaginárias”, completamente diferentes das demais, que o sistema imunológico inicialmente ataca como inimigas, numa batalha intensa entre o velho e o novo; se o processo não é interrompido, essas células se agrupam, vencem a resistência e instauram um organismo capaz de algo que a lagarta não podia conceber: voar. De modo análogo, quando evitamos o nosso próprio “casulo” — o silêncio, o tédio, a solidão e o confronto com o que já não cabe — preservamos a forma antiga, mas perdemos a chance de descobrir quais “asas” poderiam nascer justamente do encontro com a vulnerabilidade.

A DITADURA DA POSITIVIDADE

Na natureza, a transformação da lagarta em borboleta passa, inevitavelmente, pelo casulo: um período de recolhimento em que a forma antiga se desfaz para que outra possa surgir. No plano humano, porém, muitas vezes tentamos pular esse “casulo interno”. A lógica da positividade constante nos empurra a evitar tristeza, tédio, cansaço e crise, como se qualquer queda fosse sinal de fracasso. Ao tratar esses estados como algo que precisa ser eliminado rápido, interrompemos processos de transformação que, como na lagarta, exigem tempo de recolhimento para que algo novo possa nascer. Crescer é aprender a sustentar o tempo do casulo: deixar que o escuro trabalhe, que o velho se desfaca, que o corpo da vida amoleça por dentro; é nesse intervalo aparentemente estéril, em que nada “rende” e nada brilha, que as primeiras estruturas de asa começam a se desenhar em silêncio.

Desde cedo, aprendemos que certos sentimentos “não podem aparecer”: tristeza que deve ser engolida, raiva que precisa ser disfarçada, tédio que é confundido com preguiça, ansiedade que vira sinal de fraqueza. Em uma cultura de “good vibes only”, somos treinados a calar tudo o que escapa ao roteiro da felicidade permanente, como se ser saudável significasse estar sempre bem, produtivo e de bom humor. No entanto, a conta não fecha: essa positividade superficial não nos protege da dor, apenas a empurra para dentro, até que se converta em exaustão mental e vazio, justamente porque nos impede de atravessar o tipo de desconforto que poderia, pouco a pouco, nos transformar.

O QUE A GENTE RESISTE, PERSISTE

O que resistimos tende a persistir, como uma criança que pede atenção e não vai embora enquanto não recebe o que precisa. Quando evitamos olhar para certos sentimentos, o ciclo não se fecha: ele permanece em aberto, drenando energia de outros processos que também deixam de acontecer em sua completude. Se não somos capazes de acolher as emoções desconfortáveis, também não conseguimos viver plenamente as mais prazerosas; tudo fica meio amortecido.

A lógica da positividade a qualquer custo nos incentiva a ignorar o que dói, a não dar atenção à morte, ao envelhecimento, à perda, à tristeza, à raiva. É impossível estar bem o tempo inteiro; para isso, seria preciso viver em uma bolha, protegido das experiências reais da vida — e isso simplesmente não existe. Não há solução imediata para as vivências desconfortáveis: é preciso, em algum momento, mergulhar, sair do raso e permitir que essas emoções atravessem e se elaborem, porque quando a represa estoura depois de muita repressão, o estrago costuma ser maior e demanda mais tempo de cuidado e reconstrução.

A BELEZA DA DOR

Sentimentos tidos como “negativos” não são falhas, mas anúncios de que algo em nós já não cabe onde está. Eles pedem pausa, silêncio, humildade para rever caminhos e coragem para ajustar a rota; quando, em vez de combatê‑los, escolhemos escutá‑los, esses afetos se tornam guias que revelam relações que não nutrem, escolhas que ferem e limites que foram atravessados sem consentimento. A dor, então, deixa de ser apenas inimiga e passa a ser passagem, lembrando que nenhum processo de crescimento é imediato: leva tempo, leva ciclos, leva choro e riso, tédio e recomeços.

A beleza da dor está justamente na transformação que ela inaugura quando deixamos de anestesiá‑la a qualquer custo. Ao mergulhar nas próprias vulnerabilidades, deixamos de ser reféns do que nos assusta e passamos a caminhar com mais inteireza, usando a dor como um rito de passagem para uma vida mais verdadeira, ampla e alinhada com quem somos e com quem ainda podemos nos tornar. É assim que, depois de cada queda, aprendemos a levantar com asas um pouco mais fortes, capazes de voar na direção que queremos.

Darlin Inácio CRP: 06/154063

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