Todos os anos, em algum momento da temporada do BBB, aparece um movimento que chama atenção justamente porque se repete. Quando algo volta a acontecer edição após edição, deixa de parecer apenas um acontecimento isolado e passa a indicar a presença de um padrão. Mas que padrão é esse, exatamente?
Para começar, as pessoas escolhem lados. Aos poucos, participantes e público passam a se posicionar de forma mais definida diante do que acontece dentro da casa, e as discussões deixam de ser apenas sobre acontecimentos isolados para se organizarem em torno dessas divisões. Em alguns momentos, chega a parecer que cada grupo está assistindo a programas diferentes. Nesta edição, por exemplo, isso aparece com bastante clareza na forma como Ana Paula e Milena passaram a ocupar lugares distintos nas divisões que foram se formando ao longo da temporada.
Pra começar, em algum momento, quem está assistindo passa a escolher uma participante como preferida. Quando isso acontece, a forma de acompanhar o programa muda: as atitudes dessa participante passam a chamar mais atenção, suas decisões tendem a ser vistas com mais simpatia e surge um movimento quase espontâneo de defesa diante das críticas que aparecem ao longo do jogo.
Ao mesmo tempo em que escolhe uma participante como preferida, quem está assistindo também passa a se incomodar com alguém dentro da casa. Quando isso acontece, a forma de acompanhar essa participante também muda: suas atitudes passam a ser observadas com mais desconfiança, suas falas ganham um peso maior nas discussões e interpretações, e um olhar cada vez mais crítico começa a se formar. Esse incômodo vai crescendo e se tornando cada vez mais intenso, podendo chegar ao cancelamento e, em alguns casos, até a ameaças diretas.
Esse movimento de cancelamento, no entanto, não é vivido da mesma forma em todos os casos. Quando envolve uma mulher negra, muitas pessoas reconhecem que aparece ali um peso diferente, algo que vai além das críticas dirigidas a outras participantes. Nesta edição, por exemplo, isso aparece nas percepções relatadas por algumas pessoas, especialmente pessoas negras, ao acompanhar as reações dirigidas a Milena em comparação com as dirigidas a Samira.
Essa é a cena que se repete diante de nós ano após ano. Quando uma mesma cena insiste em aparecer dessa forma, talvez já não seja apenas uma história sobre o que acontece em um lugar, mas um sinal de que há algo aí que nos diz respeito. Vale a pena perguntar: o que, de fato, essa repetição nos revela sobre nós mesmos?
Continua…