O retorno ao próprio centro.

O retorno ao próprio centro começa quando se reconhece a imensidão da dor que nos atravessa, sem mais fingir que ela é apenas azar ou fraqueza individual. As notícias, os conflitos cotidianos, as crises silenciosas mostram uma sociedade que nunca aprendeu a lidar com o que sente, apenas a esconder, explodir ou adoecer. Sem mapa interno, cada desafio vira um labirinto, e a bola de neve de crises e traumas segue rolando, alimentada pela incapacidade de nomear o que se passa por dentro.

Esse afastamento do centro nasce, em grande parte, do fato de que quase ninguém nos ensinou a olhar para a própria mente, o próprio corpo e o próprio coração. Crescemos em um mundo que fala de desempenho, sucesso e controle, mas pouco ou nada sobre emoções, limites e formas saudáveis de se relacionar. Quando crianças, raramente alguém se aproximou para traduzir o ciúme, a raiva, o medo, o constrangimento diante de violências e injustiças; sem palavras, ficamos sozinhas com dores enormes, inventando explicações sobre nós mesmas e carregando, na fase adulta, um senso de orientação profundamente prejudicado.

“O retorno ao próprio centro” é, então, uma escolha diária por fazer o caminho de volta: aprender, agora, aquilo que não foi ensinado antes. Em vez de tentar consertar toda a vida de uma só vez, trata‑se de adotar pequenos hábitos que nos aproximam de nós mesmas – uma pausa silenciosa no meio do dia, um momento de observar o que o corpo sente, um instante de honestidade ao nomear uma emoção sem julgamento. Cada gesto assim é um fio que reata o vínculo com o próprio coração e, ao longo do tempo, desenha um novo mapa interno: mais claro, mais compassivo, mais verdadeiro.

Nesse percurso, sentir deixa de ser ameaça e passa a ser caminho de cura, orientação e pertença a si mesma. Mesmo sem termos aprendido cedo, ainda é possível voltar para dentro com delicadeza, e deixar que, pouco a pouco, a honestidade com o que sentimos redesenhe o rumo da nossa própria vida.

DARLIN INÁCIO CRP: 06/154063

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