O cancelamento que tanto os participantes do BBB temem não acontece apenas naquela situação específica. Ele aparece em diversas situações da nossa vida e, mais do que isso, não acontece só fora: acontece também dentro de nós. Isso me faz lembrar uma lei muito antiga da natureza, já percebida pelos alquimistas, que diz: “assim como é em cima, é embaixo; assim como é fora, é dentro”. E, neste texto, meu objetivo é olhar com mais atenção para como esse cancelamento que vemos fora também acontece dentro.
O cancelamento começa quando surge uma divisão. Aos poucos, polos diferentes vão se formando entre o que parece certo e errado, melhor e pior, aceitável e inaceitável, criando uma polarização. Dentro de nós, esse mesmo movimento pode ser percebido quando uma parte de nós aponta um caminho enquanto outra puxa em uma direção diferente.
O próximo passo em direção ao cancelamento é a escolha de um lado, e essa escolha acontece por identificação. No BBB escolhemos uma pessoa preferida; dentro de nós também escolhemos uma parte preferida, aquela com a qual mais nos identificamos. E vamos além, aos poucos passamos a ver na nossa pessoa preferida algo da parte preferida de nós mesmos, como se a pessoa passasse a carregar algo que também é nosso, a psicologia chama isso de projeção positiva. Com isso, a ligação se intensifica, podendo chegar a uma idealização exagerada da pessoa. É importante lembrar aqui que projeção não é um problema, é justamente aí que muitas paixões começam. A dificuldade aparece quando essa idealização produz distorções, fazendo com que tanto a pessoa quanto nós mesmas pareçamos perfeitas. E no fundo sabemos bem: ninguém é perfeito.
Em contraste com a idealização de alguém de um lado, surge também a demonização de alguém do outro. No BBB, esse movimento costuma surgir na forma daquela participante que menos nos representa. Dentro de nós, ele aparece como aquela parte que não queremos ser. E, novamente, vamos além: aos poucos passamos a ver nessa pessoa algo dessa parte que existe em nós, é o que a psicologia chama de projeção negativa. Com isso, a rejeição se intensifica, podendo chegar ao cancelamento e, em alguns casos, ao processo de formação de um bode expiatório. Assim como antes, é importante lembrar que projetar não é um problema em si. A dificuldade aparece quando essa rejeição produz uma visão distorcida da pessoa e de nós mesmo. É quando passamos a ver nela algo nosso que foi excluído. E ela passa a carregar algo muito maior do que ela, enquanto nós seguimos aparentemente livres de olhar aquilo em nós.
É importante também lembrar: esse cancelamento não é igual para todos. No BBB 26, por exemplo, muitas pessoas comentaram que as reações dirigidas a Milena eram percebidas como diferentes das dirigidas a Samira, especialmente por pessoas negras que acompanhavam a situação. Isso acontece porque o cancelamento não é somente individual: ele acontece de forma coletiva também. Quando um grupo se vê como portador das melhores características, tende a projetar no outro grupo aquilo que não quer reconhecer em si, abrindo caminho para processos de exclusão.
Ao longo da história, isso atingiu especialmente grupos como mulheres, pessoas negras e pessoas que fogem às normas tradicionais de gênero e sexualidade. Esses grupos foram excluídos de espaços, oportunidades e reconhecimento. Quando uma pessoa pertencente a um desses grupos é cancelada, essa história é ativada novamente e o peso coletivo vem junto, muitas vezes como mais um episódio de algo que já vinha acontecendo antes e que não é vivido apenas individualmente, mas atravessa todo um grupo. Por isso, nesses casos, o cancelamento dificilmente é vivido como algo pontual: ele costuma ser sentido como mais uma repetição.
Até aqui vimos como aquilo que acontece fora também acontece dentro de nós e como essa dinâmica se forma e se repete. Só entender essa dinâmica já é um passo importante, mas ainda não é o suficiente para transformá-la. Para que algo possa mudar de fato, precisamos começar por algumas perguntas: como perceber esse processo quando ele começa a acontecer? Como se relacionar com o outro de outra forma? E como mudar a relação com essas partes dentro de nós mesmas? Essas são algumas perguntas que podem mudar a forma como nos colocamos nessa situação. É sobre isso que vamos falar no próximo texto.
Continua…

